Lokayata

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os vivos, de que servem seus
Conselhos? Morrerás, certamente,
Para quê desespero?

Bebe teu vinho!
Espezinha tu'alma
Ignorante dos vícios.

Deixai que a embriaguez,
Acentuada, vingue tua amargura
Endêmica, que te engolfa
No instante do teu nascer.

Assassina teu ser!
É na morte da alma
Que subjaz o prazer.

Thaumiel

segunda-feira, 24 de março de 2014

As múltiplas expressões vazias
Do meu ser me nadificam,
Ser demais é ser coisa nenhuma.
Deixo o conhecimento sagrado
Aos sábios, e o destino
Àqueles letrados nos astros.
Apenas vago à deriva
À procura de vinho, minha redenção.
Morte desse ser-múltiplo,
Amorfo, morte desse ser-não.
E quando teus fios vermelhos
Dançarem à sombra de minha visão
Obrigando meu cerne a ser
Pura atenção, lembra-te que a morte
Desse ser-instante não porá fim
À minha maldição
Nem à negação de mim mesmo,
Agregado de podridão,
Tendo em vista que tudo que é podre
Há de te (re)desenhar em nulidade
E revelar a dor de ser-não
De ser o que ainda não é.
As múltiplas expressões vazias
Do meu ser me nadificam
Ser demais é ser coisa nenhuma
É ser contradição.

Cidade da Dor II

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A sinfonia de concreto anuncia
Os limites há muito ultrapassados
De uma sanidade que não vê
A luz do dia, oculta entre nuvens
Carregadas de solidão e nulidade

E cobrindo a cicatriz horrenda
Com máscaras e fantasias
De sobriedade, teu caminho ilude-anda
Deformado pela visão turva
E carne podre do teu coração maculado

Tua mente engolida pela névoa
Que esconde e revela o teu pecado
Fuja da culpa que te assassina
Da solidão que te abomina
E da certeza de estar
Sempre no lugar errado.

Oblivion

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

The binary architecture of solitude
Enlivens and smothers the multifaceted
Marvel of hopeless love
Drowning me in the low cold waters
That cruelly surrounds the Lethe
Effacing my distorted memories
And gently leading me down
To the wintry grave of forgetfulness
To the warmless embrace of oblivion.

Le Chevalier Mal Fet

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Feliz daquele que,
Em regozijo, abraça o par
Que a alma lhe completa e dá vida
E desagua-se em comunhão absoluta
Como a onda se entrega ao mar.

Mas, Destino traiçoeiro,
Dizei-me, como hei de sê-lo,
Se de teus ardis fui vítima desonrada
E, na penumbra da noite dolorosa,
Fizeste-me agir sem prudente zelo?

De minha corte, de minha felicidade
Fui cruelmente desposado
Clamo em meu exílio "Guinevère, Guinevère"
E responde-me o destino com silêncio lancinante
Prelúdio da morte de um amor amaldiçoado.

Prantos amplificados pelo desespero
Seguiram-se aos inconscientes caprichos do pecado
As notas da angustiante melodia entoada
Pelo sofrimento perene e sempre-renovado
Hão de lograr-me imperiosamente a companhia
Em meus desolados e intermináveis dias
De cavaleiro renegado.

Vale dos Homens

domingo, 17 de junho de 2012

Esculpido em ônix permaneço
Impermanentemente o mesmo.
Ao desejo de voar substitui-se
O medo de eternamente rastejar
No perecível vale dos homens.

À morte de meu ego declaro
Guerra, mas pereço assim mesmo,
Sem nunca os pés tirar
Dessa vil e miserável terra.

Pois que tenho em mente
Senão desejos profanos?

E nesta manhã de outono
Vejo-me pendendo com as folhas
E levanto e caio
E levanto e caio,

Inutilmente alimentando
Esperanças de um além-tempo,
Além-ego, além-verso,
Além-mim-mesmo. Mas,

Esculpido em ônix permaneço
Impermanentemente o mesmo.
Ao sonho de voar substitui-se
A certeza de eternamente rastejar
No perecível vale dos homens.

Pois que tenho em mente
Senão desejos profanos?

Necromante

domingo, 4 de março de 2012

Onde antes habitou uma ferida
Apresenta-se uma fera morta e renascida
Respirando as cinzas do castelo que ardera
Engasgada com os álgidos cacos do sentimento
Que ao longo dos séculos foi seu único alento
Mas agora jaz meio caída, moribunda
Com o necromante a aguardar de soslaio
No sopé de uma torre que foge do céu
Escondendo-se numa depressão profunda
Negra, consumida pelo fogo de outrora
Em contraste sombrio com as cores vivas da aurora
Revelando pecado, vaidade e indolência
Mas a fera sobrevive com veemência
Respirando as cinzas do castelo que ardera
Engasgada com os álgidos cacos do sentimento
Que ao longo dos séculos foi seu único alento
Ao lado das lágrimas que pendiam pelo amor que perdera.